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manifesto
A criminalização do aborto condena todos os anos
milhares de mulheres a um caminho de clandestinidade, a que se associam
perigos graves para a sua vida, saúde física e psíquica. É um flagelo que
afecta em particular jovens e adolescentes. Esta realidade torna
indispensável intervir activamente no processo de alteração da lei actual,
mobilizando a juventude portuguesa para a participação cívica no referendo
que se avizinha e assegurando uma discussão alargada e esclarecida das
vantagens da despenalização do recurso ao aborto.
Entendemos, em primeiro lugar, que o debate na Sociedade Portuguesa,
particularmente entre as camadas mais jovens da população, se tem revelado
consensual nos últimos anos, na recusa em sentar as mulheres que recorreram
a um aborto clandestino no banco dos réus e na recusa em enviá-las para a
prisão. A lei criminalizadora que temos continua, infelizmente, no caminho
da estigmatização, sujeitando-as à humilhação pública e à devassa das suas
vidas privadas, que poderá conduzir a uma pena de prisão de até 3 anos.
Em segundo lugar, a lei actual é ineficaz em dar resposta ao problema do
aborto clandestino: as estimativas quanto ao número de abortos clandestinos
e realizados anualmente em Portugal apontam para números na casa dos 20 mil.
A realização de abortos clandestinos fora da segurança dos estabelecimentos
de saúde retira à mulher o direito a uma decisão reflectida e acompanhada,
colocando em perigo a sua saúde física e psicológica, conduzindo em muitos
casos à sua morte.
A Conferência Mundial das Nações Unidas sobre as Mulheres afirmou, já em
1995, com clareza que “o aborto em condições precárias põe em perigo a vida
de um grande número de mulheres e representa um grave problema de saúde
pública, dado que são as mulheres mais pobres e as jovens que correm mais
riscos”. São, pois, estas as mulheres e jovens que são empurradas para as
redes de aborto clandestino sem condições e para o aborto auto-infligido,
uma vez que não têm possibilidade de recorrer a intervenções em segurança no
estrangeiro.
Finalmente, acreditamos também que é indispensável adoptar uma visão
integrada da saúde sexual e reprodutiva, que responda aos problemas que
estão na origem da necessidade de uma interrupção de uma gravidez
indesejada. Sendo impossível assegurar a infalibilidade dos meios de
contracepção, a possibilidade de interromper uma gravidez em condições de
segurança e no quadro da legalidade, em estabelecimentos de saúde
devidamente autorizados, é uma exigência de saúde pública. Para além disso,
permite acompanhar e integrar no sistema de planeamento familiar todos
aqueles que não tiveram acesso à contracepção e a uma educação sexual
informada e responsável, evitando a ocorrência futura de gravidezes
indesejadas. Esta é uma solução que sabemos ter conduzido a um menor número
de abortos no caso dos países europeus que por ela optaram.
Cientes de que a actual lei afecta de um modo muito particular a juventude
portuguesa, os/as signatário(a)s deste documento, jovens e associações
juvenis, estão confiantes de que é também às jovens e aos jovens que cabe
dar um contributo determinante para assegurar que Portugal ofereça
finalmente uma resposta progressista e moderna para o problema. É com esta
convicção que apelamos ao voto no SIM, pela despenalização da Interrupção
Voluntária da Gravidez.
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